Felicidade

6 Janeiro 2008

Pascal Renoux

Recorda a dança depressiva e cai sobre os passos já pisados
Prende a nudez ao corpo e ensaia o desmaiar da realidade
Recorta a dor em mil gritos que voam pálidos e alucinados
Esmaga o clamor, recomeça de novo rumo à tua felicidade

Foto: Pascal Renoux

Saudade

10 Fevereiro 2007

Sinto no rosto o meu corpo em decadência
E no meu pranto a melancolia de um poeta
Escrita e descrita nos traços da tua ausência
Pautada sem voz na poesia de forma discreta

Sinto floreadas e disfarçadas nas noites urbanas
As palavras polidas na taciturnidade que se sente
Quero que a cidade ouça o silêncio que proclamas
Porque o suicídio da saudade está iminente

Agora que as pestanas da cidade apreciam o momento
Em que o silêncio se quebra nas cordas de uma guitarra
Entrelaço os dedos no teu corpo vestindo o sentimento
Sentindo o prazer de te ter num abraço que nos agarra

Fotos: Pascal Renoux

Vidros

30 Janeiro 2007

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Esmagas os vidros na tua mão a palma pisada
Em grito quebras a dor e abres a mão fechada
Esquissos rubros e rasgados renascem do nada
É o fado triste a dar voz à sina por ti delineada

Foto: Mojalewastopa

Rosto

11 Outubro 2006

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Passo água pelo rosto, olhar cansado
Desvio os dedos ao longo da simetria
Olho-te espelho, olho-te mal amado
Reflexo queimado pelas luzes do dia

Vértices ríspidos me rasgam em mil
Em cubos de vidro de sangue volátil
Excelsa é a dor da volúpia e do agrado
Com que me mordes o rosto cansado

Foto: Frederic Gaillard

O Coração dos Homens

3 Outubro 2006

O Coração dos Homens

A ausência de sentimentos, de afectos, de abraços escondidos nos ombros de uma mãe, de mãos que passam nas mãos nuas e frias, de contornos escritos nos olhos fundos e cansados de serem leito de lágrimas, que nos aliviam a mente e o corpo.

A ausência de medos, de fraquezas, de sentimentos de perda, de amor e de poesia.
A ausência de um gosto de ti.

Em O Coração dos Homens os homossexuais não são considerados humanos e as mulheres apenas utensílios de satisfação sexual.
Nada mais.

Apenas a arte de espancar, de violar, de matar, de destruir, de sentir as entranhas de uma cidade suja e quente.

Apenas o álcool, as drogas, as putas, apenas o sangue asfixiado na respiração emitida pelo coração, acelerado e fixado no prazer de sofrer.
O sofrimento da carne, os nervos que explodem a cada batimento cardíaco.

É assim que retrato este romance de Hugo Gonçalves.